APRENDIZADO NO KARATE-DO

Como deve se desenrolar o aprendizado no Caminho das Mãos Vazias.

Olá, KARATE NERD!


Hoje vamos falar um pouco sobre o aprendizado em nossa arte.

Mais que uma forma de luta, o Karate-Dō [空手道] é uma disciplina de desenvolvimento pessoal. Muitos karateka [空手家] se perguntam, “como ocorre esse desenvolvimento se nós só treinamos chutes, socos, bloqueios, esquivas, etc?!”, associando esse desenvolvimento apenas aos aspectos físicos (força, desenvolvimento motor, flexibilidade, entre outras características). De fato, esse crescimento é importante, pois o corpo é a ferramenta pela qual o sensei [先生] começa a trabalhar com seu aluno, mas não a única. Apenas é a mais óbvia.

O trabalho no Karate-Dō é uma via interna (mente e espírito) que se dá através da via externa (corpo), pois o praticante deve superar suas próprias limitações físicas para atingir novos patamares e dominar novos aspectos da arte marcial. Essas conquistas são representadas de maneira muito simples, as faixas de graduação para Kyū [級] ou Dan [段]. Há uma diferença muito grande entre essas duas, que será abordada em um texto futuro.

Mas não só de barreiras físicas é forjado o Karate-Dō. Quando o aluno entra no Dōjō [道場], faz uma reverência ao local, a qual é repetida ao cumprimentar o professor. Durante uma aula, esse mesmo aluno deve respeitar a figura do professor e as orientações que lhe são passadas, sempre questionando quando ocorrerem dúvidas, claro. Esse é um exercício de etiqueta, no qual exercemos e praticamos nossa educação e respeito ao próximo e a quem nos orienta. Mas, acima de tudo, é um exercício de humildade. Uma ferramenta mais sutil que o treinamento físico, mas sempre presente na prática.


Ao ouvir e respeitar o professor, nos submetemos aos seus ensinamentos. Reconhecemos nele uma figura importante, não por ter maior conhecimento ou habilidades, mas por estar naquele local, à nossa disposição, oferecendo orientações. Mesmo um karateka de 5º Dan (godan [五段]) faz reverência ao professor presente no local, independente se este possui uma graduação hierarquicamente inferior de 4º Dan (yondan [四段]), por exemplo. No momento em que nos curvamos para fazer a reverência, reconhecemos que somos aprendizes, não importa nosso grau de instrução.

Há quem não se adapte à estrutura das aulas de Karate-Dō, as quais possuem um caráter vertical e pouco mais rígido do que outros modelos educacionais. É compreensível, pois, para que o aluno se dedique por completo, é necessário abandonar o egocentrismo e se entregar. Alguns, ao entrar em atividades novas, procuram dar o melhor de si e chamar a atenção do professor e dos colegas. Isso é muito comum dentro de um Dōjō, mas é preciso entender que a aula não é voltada para um aluno específico, e sim para todos.

Nenhum aluno é mais importante que os outros. Nenhum aluno é melhor que os outros. Todos os alunos devem se esforçar igualmente, não para serem melhores ou para se destacar, mas para crescerem dentro de sua própria prática. Além disso, a única comparação que deve existir é consigo mesmo: ao olharmos para o lado, não nos comparamos com o colega, mas procuramos nele qualidades que nos auxiliem a progredir no nosso próprio caminho (Dō [道]).

Esse desprendimento do egocentrismo e entrega à prática é um dos desafios que o karateka encara constantemente, independente de sua graduação.

Como podemos observar, são diversos os meios de desenvolvimento do Karate-Dō. O mais óbvio deles é a prática física, mas elementos que envolvem respeito, etiqueta, humildade e desprendimento, muito mais sutis, ajudam a compor essa arte marcial.

Osu!!!


Brandel Filho [ブランデル フィリオ]
Editor do site e professor de Karate-dō,
Que, antes de praticar Karate, só conhecia etiqueta de roupa.
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REFERÊNCIAS
FUNAKOSHI, G. Karatê-Dó: O meu modo de vida. São Paulo: Cultrix, 2010. 7. ed.
FUNAKOSHI, G. Karate-Dō Kyōhan: The master text. Tokyo: Kodansha International, 1973.

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